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8 1/2 | Otto e Mezzo, de Federico Fellini
 

Ficção, 1963, 145’, Itália

Guido Anselmi (Marcello Mastroianni) é um realizador à procura da inspiração para o seu próximo filme. Durante a viagem surgem-lhe fantasmas misturados com personagens reais. Essas visitas acabam por evocar tantas histórias que o filme se vai fazendo sozinho, num misto de realidade e fantasia, memórias de infãncia e factos forjados. Guido junta todos os elementos e dirige assim o seu filme «8 1/2». Realizado pelo conceituado Frederico Fellini, esta obra foi nomeada para o Óscar de Melhor Realizador, tendo sido contemplada com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. A reposição deste clássico é feita com uma cópia restaurada.

Diz-se que Fellini teve a ideia para o filme nas mesmas termas onde decorre grande parte da acção de “8 ½”. Tudo começa com um sonho/pesadelo, onde Guido/Marcello Mastroianni, um realizador em crise existencial e criativa, se vê ora a sufocar ora a voar livremente, e finalmente a ser puxado para a realidade pelos seus executivos.
Mas o brilhantismo de Fellini ultrapassa a história central. O conceito abrange ainda o divã cinematográfico. Aqui e ali vamos regressando ao passado de Guido (leia-se Fellini) e descobrindo a origem das suas mulheres voluptuosas, a castração cristã numa Itália da primeira metade do séc.XX, a relação com os pais e, acima de tudo, com as mulheres.
Contudo, o momento mais hilariante nem é sonho nem recordação, uma pura imaginação sarcástica e machista onde Guido vive num harém como rei e senhor de todas as mulheres – passadas, actuais, reais, imaginadas. Aí elas o amam e veneram, aí se revoltam e aí Guido as tenta domar à lei do chicote (não admira, portanto, o ódio que por longo tempo as feministas dedicaram a Fellini).
Concomitantemente, um intelectual marxista e apaixonado de Fitzgerald vai sendo a voz da consciência artística e pessoal de Guido, e Claudia Cardinale, ‘as herself’, é a sua nova musa inspiradora, a única que em vez de muitas perguntas lhe oferece respostas: “...porque esse homem não sabe amar... porque esse homem não sabe amar...”.
Mas cinéfilos, críticos e espectadores em geral são tão divergentes nas suas opiniões face a “8 ½” quanto às cores preto e branco do filme. Alan Stone escreveu "Quase ninguém sabia ao certo o que tinha visto após o primeiro contacto com “8 ½”. O que é um facto inegável e incontornável, mas como o explica Roger Ebert: “É o que distingue os grandes filmes, enquanto que com um filme pobre já se sabe tudo apenas com um visionamento.”
Mas não é apenas no conceito que “8 ½” surpreende; também na estética nos corta várias vezes o fôlego. Os exemplos são vários: através dos contrastes, num expressionismo que tão bem Fellini utiliza (vejam-se as vezes que Guido fala ‘ensombrado’, ou o plano onde no carro o seu rosto está a negro e o de Claudia Cardinale todo iluminado); as dobragens de voz habilmente trabalhadas (os sussurros de Guido, os diálogos misturados a baralharem-nos e direccionarem-nos a atenção), e a música.
Com tudo isto, “8 ½” oferece-nos magia e inspiração suficientes para que 40 anos depois ainda o vejamos a brilhar como da primeira vez.
Se “8 ½” tem classificação na ordem de filmes realizados por Fellini (até aí o realizador tinha feito 6 filmes e co-realizado 3, daí que estes apenas valendo metade Fellini apelide o filme de “8 ½”) já o seu valor é inestimável, como obra cinematográfica, artística e humana.
A prova viva que demonstra a diferença entre um filme confuso e uma obra riquíssima: as incansáveis vezes que se revê sem esforço e as inesgotáveis descobertas que a vão fazendo crescer e transformar-se aos nossos olhos.
Ricardo Jorge Tomé in http://www.rtp.pt

 
 
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